CANCELADOS
Filmes que muita gente ainda ama, mas que hoje já não passam ilesos.
Os tempos mudaram e muita coisa que tinha uma aceitação como piada, narrativa ou até na forma da condução da criação de um filme começou a ser mal vista. Dito isso, pensei em uma lista de filmes CANCELADOS. Isso não quer dizer que eles não possam mais ser exibidos, mas acho válido assistir sem ignorar os problemas que existem neles.
AZUL É A COR MAIS QUENTE (2013)
🚫 Problema principal: bastidores e representação
As atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos relataram filmagens extremamente longas e desconfortáveis nas cenas de sexo. Léa, em entrevista, disse: “Passamos 10 dias só naquela única cena. Não foi tipo, ‘ok, hoje vamos filmar a cena de sexo!’. Foram 10 dias.”
Foram feitas críticas à exploração e à falta de limites claros no set. O diretor Abdellatif Kechiche publicou uma carta aberta dizendo: “Se meu filme não tivesse feito sucesso em Cannes”, escreveu ele, “eu seria um diretor destruído... um homem morto”
Parte do público criticou o olhar “masculino” sobre uma relação lésbica. O diretor respondeu: “Eu preciso ser uma mulher para falar sobre o amor entre mulheres?”
CATS (2019)
🚫 Problema principal: estética e execução
Com um CGI considerado perturbador num filme que custou mais de 100 milhões de dólares para ter como resultado o tal do vale da estranheza, que é quando algo parece humano demais para ser confortável, mas não humano o suficiente para convencer, causando aquela estranheza.
No fim, não teve um “cancelamento” por moral, e sim por uma falha criativa.
IRREVERSÍVEL (2003)
🚫 Problema principal: violência extrema
Durante nove minutos vemos uma cena de estupro explícita e filmada com uma câmera fixa. Alex, que é interpretada por Monica Bellucci, é violentada. Essa cena em específico fez com que 250 pessoas abandonassem a sala de projeção no dia da estreia porque não suportaram a violência mostrada.
O filme é acusado de ser exploratório, não apenas de retratar violência, e de usar o choque como linguagem, dividindo opiniões ainda hoje.
A própria Monica Bellucci disse: “Tomei a decisão de interpretar o filme por instinto. E não me arrependo. Era a obra de um grande diretor, um filme que ainda se discute”.
O AMOR É CEGO (2001)
🚫 Problema principal: gordofobia
Com um humor baseado em aparência física, o uso de um “fat suit” para intensificar a piada em uma atriz de corpo padrão como Gwyneth Paltrow, que precisava de mais de quatro horas de maquiagem para se transformar em Rosemary. Hoje é visto como reforço de estereótipos.
Era aceito nos anos 2000, mas envelheceu mal. Existe no filme uma camada voltada para o clichê da valorização da beleza interior, mas o corpo gordo continua sendo a grande piada central.
A atriz Ivy Snitzer foi dublê de corpo de Gwyneth Paltrow. Logo após as filmagens, teve dificuldades de aceitar o seu corpo, fez uma bariátrica que com o tempo se mostrou mal-sucedida e acabou surgindo em um momento em que ela não possuía plano de saúde, fazendo com que tivesse que aguardar por um tempo até se recolocar novamente.
Antes de fazer a cirurgia corretiva, passou mais de quatro meses se alimentando apenas de líquidos. Segundo a atriz, isso fez com que perdesse tanto peso que era possível enxergar os dentes dela através do próprio rosto.
SERÁ QUE ELE É? (1997)
🚫 Problema principal: representação LGBTQ+
Com um humor baseado em “pânico gay” e estereótipos caricatos, era um filme considerado progressista para a época, mas, visto de mais de perto hoje, parece simplista e datado.
O típico caso de um clássico que era “avançado” e virou problema.
TROVÃO TROPICAL (2008)
🚫 Problema principal: raça e representação
Robert Downey Jr. usa blackface como parte da sátira, o que no cinema já era algo considerado degradante. Porém, não parou por aí.
O personagem “Simple Jack” foi criticado por caricaturar deficiência intelectual. A defesa mais comum é que o filme faz uma sátira da própria indústria, dividindo opiniões.
O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (1972)
🚫 Problema principal: abuso nos bastidores
A famosa cena da manteiga foi improvisada e sem consentimento pleno da atriz Maria Schneider, que tinha 19 anos na época, em seu primeiro papel de destaque. O diretor Bernardo Bertolucci admitiu isso anos depois. Hoje é visto como caso grave de violação ética.
A atriz, que se tornou um sex symbol, inventou histórias do tipo ter dormido com 50 homens e mais de 20 mulheres, mentiras para dar o que a mídia queria. Toda essa pressão e os anos 70 fizeram com que ela se viciasse em heroína por um bom período. Mesmo com todos esses traumas, a atriz seguiu e protagonizou outro clássico do cinema, o filme Profissão: Repórter, junto com Jack Nicholson, do diretor italiano Michelangelo Antonioni.
Essa foi a listinha de filmes CANCELADOS, novamente, vale deixar claro que eu não sou do tipo que deixa de assistir a algo, mas considero importante não ignorar totalmente a problematização que esses filmes possam representar.
LIVRO
Às vezes a gente não entende como certas narrativas acontecem. No livro Só As Partes Engraçadas, de Nell Scovell, conta a trajetória da roteirista em Hollywood, que passou por programas como Late Night with David Letterman e até Os Simpsons. O livro combina bastidores da indústria com episódios pessoais, mostrando como o humor foi ferramenta de sobrevivência em ambientes frequentemente hostil.
A parte mais interessante não está nas histórias engraçadas em si, mas no que elas revelam. Scovell expõe, com precisão, as dinâmicas de poder nas salas de roteiro e como a comédia pode funcionar tanto como escudo quanto como moeda de troca. Ao fazer isso, o livro mostra que nem sempre só o talento sozinho sustenta uma carreira criativa. Ele mostra que contexto, acesso e estrutura pesam tanto quanto a habilidade de escrever uma boa piada.
Eu li e vale muito a pena comprar. Está frequentemente em promoção na Amazon, a última vez estava R$ 13,00 versão para kindle.























Muito obrigado pela indicação do livro! Estou adorando
Uma das versões mais aceitas (porque cada bolha tem a sua, e seria muita inocência aceitar a versão de quem fez o filme...) é que ali, no Trovão Tropical, era o "blackface contra o blackface". Enfim, zona cinzenta, com discussões que jamais acabarão.